Crônicas da caixola

Judith Butler. Isso lá é coisa dessas feministas

14 de novembro de 2017

Não conheço Judith Butler. É ela a tal feminista americana? Que tem tirado o sono de mulheres? Mas ela não deveria fazê-las abrirem os olhos? Sentirem de outra forma? Falar o que pensam? Racionalizar a forma com que vivem? Ou que seriam obrigadas a viver? Era para os homens da antiga Grécia não gostarem dela.

Foi ela que que foi agredida? Oi, por mulheres? Ela revidou? Mulher bate em mulher? Mulher odeia mulher? Não tem aquele lance da sororidade? Homem bate em mulher. Tá todo mundo se batendo ultimamente.

É porque ela é americana?

É porque ela é mulher?

Branca? Rica? Bem-sucedida?

É casada? Tem filhos? Isso importa? Seus pais são conservadores? Seus traumas de infância pesam no que ela diz hoje em dia? Isso importa?

Tem olhos claros?

Descendente de alemães?

O que que filósofa sabe sobre a vida? Continue lendo “Judith Butler. Isso lá é coisa dessas feministas”

Crônicas da caixola

Parabéns pra você

25 de outubro de 2017

– Oi, você de novo?

– É, ué. Todo ano eu tô aqui.

– Não consigo me acostumar.

– Mas já é hora. Você é grandinha já.

– Tá me dizendo que suas visitas acontecem desde que sou pequena? Peraí.

– De uma certa forma sim.

– Pera, pera, pera…

– Eu sei, às vezes é confuso.

– Como é que eu só fui perceber agora, meu Deus?

– Porque falaram pra você.

– Pois, talvez…

– Quanto mais falam, quanto mais você lê sobre mim, mais você fica perdidinha. É engraçado.

– Mas é que às vezes faz sentido, outras vezes não.

– Essa é a graça.

– Não percebo… por que você tá rindo? Continue lendo “Parabéns pra você”

Crônicas da caixola

Meta e desejo [por Jaqueline Moraes]

27 de setembro de 2017

Foi então que ele entrou na minha vida.

Precisei ir ao toalete, meio tonta, não sabia muito a diferença entre reta e curva. Pior, todos viam que eu não sabia. Tinha uma fila meio chata que me fez parar no meio do caminho, uma visão que não me agradava. E a bexiga pulsando.

– Não perca as esperanças. – uma voz masculina.

Esperanças? Para o momento atual aquela frase não poderia ser melhor. Afinal, onde estava Tom naquela hora? Estaria pensando em mim ou… com outra? Coisas de mulher.

Eu me virei e olhei para ele com um sorriso maroto. O cara me despertou uma sensação de céu. Fitei-o com firmeza.

– Mais um Black Jack? – ele.

– Você não tem nada mais forte?

– Assim você me deixa sem graça.

– Foi você que começou. Continue lendo “Meta e desejo [por Jaqueline Moraes]”

Crônicas da caixola

Enternecida

14 de setembro de 2017

Que se perpetue

Que viva nos quilombos silenciados das novas gerações

Nas cortes dos menos

Corteses que ainda têm corações

 

Que o soar do nosso pensamento

Ecoe com sotaque

Que garanta a liberdade de falar

Como se quer

Continue lendo “Enternecida”

Crônicas da caixola

A/C Rio de Janeiro

31 de julho de 2017

Ir embora não é fácil. Mas, no meu momento, mais difícil seria ficar. Tenho exatos sete dias para me despedir. Você me deu lugares e me apresentou pessoas impossíveis de esquecer.

Mas, a gente diz ‘tchau’ o tempo todo mesmo, não é?! Só que não percebe.

Penso em locais que ganharam um pouco de mim e eu tenho a obrigação e o prazer de ir lá agradecer.

Obrigada por ter me emprestado tantas vezes o Arpoador. Aqueles quarteirões que o cercam guardam poesias, agonias, novidades e felicidades. Foram cúmplices e por vezes observadores da minha vida. Sofri, vi, vivi, amanheci e bati palma para os pores do sol. Continue lendo “A/C Rio de Janeiro”

Crônicas da caixola

Cantando coisas de amor

24 de julho de 2017

Parei e vi a vida passar. Como quem não quer nada. E daquelas que ouvem tudo.

Como que vai ser quando ela voltar da Alemanha? Será que volta? E ela esquecer o pandeiro que carrega à tira colo nos últimos carnavais? Eu só via  a banda passar.

Ele cantava coisas de amor. Mas muito, tanto que ela enjoou. A passada por Londres tempos antes foram fundamentais. Fez poesia em cada pint que bebia. Dobrava o pedido a cada olhar que dava. Difícil acompanhar a comanda. E ele ouriçado com cada capítulo de Tieta.

As Diretas chegaram por aqui. Nem viu o tempo passar naquele quarto escuro. Foram meses sem jornal nem notícias relevantes. Tinha vez que só se escutava o miado do gado e a goteira da chuva lá fora. Confundira os tempos.

Trocara o dia pela noite. Não sabia mais a quantas andava Brasília, quanto mais a política do Brexit.

Rainha Elizabeth benzia o quarto neto e comemorava o réveillon na Rússia. Um incêndio assolou Portugal e fez a Espanha ceder bombeiros, médicos, carpinteiros, taxistas, todas as mãos de obra que viam pela frente. A Itália entrou em guerra com a Grécia e foi a Escócia que apartou a briga. Continue lendo “Cantando coisas de amor”

Crônicas da caixola

Perhaps

27 de junho de 2017

Talvez eu fique. Talvez.

Fique em cada pinta do seu ombro

Fique em cada espirro na madrugada

Talvez até no ressoar da noite

ou no ronco nas primeiras horas da manhã

Naquele momento em que o sono não me pesa mais

Naquele segundo que você, e só você, resolver me acordar

O seu barulho talvez me embale

e o abajur ainda ligado me lembre que já é noite

Talvez eu goste.

Talvez seu som seja turbulento demais

É o eco da sua vida

Talvez eu até goste

Mas não fique. Continue lendo “Perhaps”

Crônicas da caixola

O Rio sendo Rio

23 de junho de 2017

Ontem choveu e não teve samba. Teve bossa. Teve chorinho. Mas não teve samba.

O dia depois do temporal que assolou o Rio deixou as ruas tais quais rios, tal qual no século passado, cheio de marcas. As esquinas foram limpas da lama que ficou, os carros que boiavam na Lagoa saíram do ponto turístico e nobre carioca. Devem ter conseguido chegar ao destino com uma parada estratégica para a revisão na Baixada. E olha que lá é longe. Só de trem.

Anteontem não teve samba. Mas também não teve jazz. Não teve capoeira. Mas também não teve stiletto. Tudo bem. Tem dia que o Rio é mais Rio do que a gente pensa. Continue lendo “O Rio sendo Rio”

Crônicas da caixola

O que é o amor?

12 de junho de 2017

O amor não é cumplicidade, não é altruísmo, o amor não é tesão nem tensão, o amor não é ilusão.

O amor simplesmente é. Ele chega e você não vê, só sente. Quando você ama, simplesmente ama.

Escreve-se muito sobre relacionamento, mas pouco sobre o sentimento. Continue lendo “O que é o amor?”

Crônicas da caixola

Novembro

4 de junho de 2017

Meu corpo já não responde

As unhas já não são mais cortadas

A mão desliza cansada

Os pés incham da

Tristeza escorrida

 

Meus reflexos são

Inexatos

E o coração/inacabado

Do pesar desfalecido

 

Meu corpo já abriga

A luz enternecida

E as trevas enamoradas

 

Emancipada vem,

realidade

 

[licença concedida aos versos, escrita em 2013] Continue lendo “Novembro”