Crônicas da caixola

A/C Rio de Janeiro

31 de julho de 2017

Ir embora não é fácil. Mas, no meu momento, mais difícil seria ficar. Tenho exatos sete dias para me despedir. Você me deu lugares e me apresentou pessoas impossíveis de esquecer.

Mas, a gente diz ‘tchau’ o tempo todo mesmo, não é?! Só que não percebe.

Penso em locais que ganharam um pouco de mim e eu tenho a obrigação e o prazer de ir lá agradecer.

Obrigada por ter me emprestado tantas vezes o Arpoador. Aqueles quarteirões que o cercam guardam poesias, agonias, novidades e felicidades. Foram cúmplices e por vezes observadores da minha vida. Sofri, vi, vivi, amanheci e bati palma para os pores do sol. Continue lendo “A/C Rio de Janeiro”

Crônicas da caixola

Cantando coisas de amor

24 de julho de 2017

Parei e vi a vida passar. Como quem não quer nada. E daquelas que ouvem tudo.

Como que vai ser quando ela voltar da Alemanha? Será que volta? E ela esquecer o pandeiro que carrega à tira colo nos últimos carnavais? Eu só via  a banda passar.

Ele cantava coisas de amor. Mas muito, tanto que ela enjoou. A passada por Londres tempos antes foram fundamentais. Fez poesia em cada pint que bebia. Dobrava o pedido a cada olhar que dava. Difícil acompanhar a comanda. E ele ouriçado com cada capítulo de Tieta.

As Diretas chegaram por aqui. Nem viu o tempo passar naquele quarto escuro. Foram meses sem jornal nem notícias relevantes. Tinha vez que só se escutava o miado do gado e a goteira da chuva lá fora. Confundira os tempos.

Trocara o dia pela noite. Não sabia mais a quantas andava Brasília, quanto mais a política do Brexit.

Rainha Elizabeth benzia o quarto neto e comemorava o réveillon na Rússia. Um incêndio assolou Portugal e fez a Espanha ceder bombeiros, médicos, carpinteiros, taxistas, todas as mãos de obra que viam pela frente. A Itália entrou em guerra com a Grécia e foi a Escócia que apartou a briga. Continue lendo “Cantando coisas de amor”

Crônicas da caixola

Perhaps

27 de junho de 2017

Talvez eu fique. Talvez.

Fique em cada pinta do seu ombro

Fique em cada espirro na madrugada

Talvez até no ressoar da noite

ou no ronco nas primeiras horas da manhã

Naquele momento em que o sono não me pesa mais

Naquele segundo que você, e só você, resolver me acordar

O seu barulho talvez me embale

e o abajur ainda ligado me lembre que já é noite

Talvez eu goste.

Talvez seu som seja turbulento demais

É o eco da sua vida

Talvez eu até goste

Mas não fique. Continue lendo “Perhaps”

Crônicas da caixola

O Rio sendo Rio

23 de junho de 2017

Ontem choveu e não teve samba. Teve bossa. Teve chorinho. Mas não teve samba.

O dia depois do temporal que assolou o Rio deixou as ruas tais quais rios, tal qual no século passado, cheio de marcas. As esquinas foram limpas da lama que ficou, os carros que boiavam na Lagoa saíram do ponto turístico e nobre carioca. Devem ter conseguido chegar ao destino com uma parada estratégica para a revisão na Baixada. E olha que lá é longe. Só de trem.

Anteontem não teve samba. Mas também não teve jazz. Não teve capoeira. Mas também não teve stiletto. Tudo bem. Tem dia que o Rio é mais Rio do que a gente pensa. Continue lendo “O Rio sendo Rio”

Crônicas da caixola

O que é o amor?

12 de junho de 2017

O amor não é cumplicidade, não é altruísmo, o amor não é tesão nem tensão, o amor não é ilusão.

O amor simplesmente é. Ele chega e você não vê, só sente. Quando você ama, simplesmente ama.

Escreve-se muito sobre relacionamento, mas pouco sobre o sentimento. Continue lendo “O que é o amor?”

Crônicas da caixola

Novembro

4 de junho de 2017

Meu corpo já não responde

As unhas já não são mais cortadas

A mão desliza cansada

Os pés incham da

Tristeza escorrida

 

Meus reflexos são

Inexatos

E o coração/inacabado

Do pesar desfalecido

 

Meu corpo já abriga

A luz enternecida

E as trevas enamoradas

 

Emancipada vem,

realidade

 

[licença poética, escrita em 2013] Continue lendo “Novembro”

Crônicas da caixola

Renasça e Reconstrua

17 de maio de 2017

No ventre do mundo

Cabem todos os irmãos

Em seu seio

Bebem todos os sedentos

E alimentam-se todos os famintos:

Criação boa e farta

Então, ser órfão por quê?

 

A alma é envenenada

O corpo é corroído

E o mundo destruído

Irmão órfão miserável e sanguinário

Continue lendo “Renasça e Reconstrua”

Crônicas da caixola

Carta aberta ao Amor

24 de abril de 2017

Eu tô indo.

E não sei se volto. Porque dessa vez eu estou indo inteira.

Mas, antes de partir, queria muito que soubesse o tamanho do meu amor – se é que consigo medi-lo. Já tentei mensurar pelo tempo, achando em vão que um dia acabasse. Tentei contar pelos batimentos cardíacos por minuto quando pensava em você. Mas, isso é paixão. Tentei até comparar. Fazer listas prós e contras, porém o derradeiro item sempre vencia todos os outros: eu te amo.

Amo mais com calma do que com vontade. Por vontade própria eu não te amaria. Continue lendo “Carta aberta ao Amor”

Crônicas da caixola

Pilates é/ou vida!

9 de abril de 2017

O barulho do despertador às oito e meia da manhã é quase implacável. Me acorda, mas não me faz abrir os olhos. A soneca automática de cinco minutos não faz mais efeito. Quando resolvo acordar, mesmo que contrariada, me levanto de lado com todo o cuidado do mundo. Penso na professora de pilates ensinando a forma correta de acordar.

Pois é, acordar. Porque dormir, olha… é um pé pra cá e outro pra lá…

Cumpro a rotina de toda manhã e parto para aula. Uma das melhores coisas de fazer pilates é não ter que colocar tênis quando está calor.

Tem dias que já chego suando no estúdio. Ainda bem que todo começo de aula tem alongamento. Depois eu me engano. É alongamento ou já é exercício? “Sentiu a parte de trás da perna, Ju?” Eu respondo num misto de alegria e medo: “parte de trás da coxa também, né?! Não era pra sentir inclusive panturrilha e abdômen?”

Continue lendo “Pilates é/ou vida!”

Crônicas da caixola

Vamos renascer das cinzas

8 de março de 2017

Não era Carnaval, era um baile. Não era um homem, era um menino. Não era um menino, era uma criança. Não, não. Não era nem criança. Criança tem pureza no coração. Com criança a gente sorri.

E eu chorei.

Chorei de raiva. Fiquei perdida.

Foi tudo rápido. Levei um tapa na cara no meio de uma boate e não consegui revidar. A vergonha bateu. E eu só queria sair dali, fugir. Fugir de mim mesma até me reencontrar inteira de novo.

A primeira coisa que ouvi foi “mas o que você fez? Eu te conheço, certamente você fez alguma coisa”. Devo ter feito mesmo. Até hoje não sei o quê. Não sei responder essa pergunta. Mas ela ronda, porque se tem alguma coisa certa nesse mundo é a que eu tenho culpa sim de ter sido assediada e quando fui me impor simples e levianamente recebi uma mão daquelas bem pesadas no rosto.

Arde. Arde muito. Quando as lágrimas correm, arde. Continue lendo “Vamos renascer das cinzas”