Ganhe cultura

Canalha, quem?

20 de junho de 2017

-Quem nunca foi canalha que atire a primeira pedra!

Xi!

Silêncio?

Não, claro, não. Ouve-se muitas pedras sendo atiradas.

-Canalha que é canalha não se revela. Melhor são aqueles que se assumem garanhões, não-respeitáveis e que fogem a todo custo de um relacionamento sério.

E mulher, aprende a ser igualzinho a eles?

-Sei não, heim.

-Tenho uma amiga que sofreu tanto na mão de um que resolveu se vingar. Só que com os próximos. Depois de José Augusto ela nunca mais foi a mesma.

-Acho que canalhice é um estado de espírito.

-Mas, que se aprende, se aprende.

-E por que ela não perdoou e seguiu em frente?

-No próximo chope ligo pra ela pra bater esse lero com você. O que interessa são os fatos. Acredita que ele não queria nada com ela, mas casou com outra e fez a coitada de amante?

-Porra, ela virou a outra porque quis…

-É.. Deve ter suas compensações.

-Não liga no fim de semana, não te cobra horário e o sexo é sempre ma-ra-vi-lho-so.

-Ah, isso é… porque a gente sabe como é depois que casa.

-Ela diz que queria casar e ter filho, mas do que ela gostava mesmo era dele. Se não fosse ele, não servia mais ninguém.

-Então, vá lá, fala a verdade! Ela não gostava era de si mesma.

-Eu não te contei a pior… ela foi no aniversário do safado e deu de cara com a esposa dele e tudo. Pensa, amiga. Subiu no salto e foi lá.

-Corajosa.

-Ou cara de pau?

-Você iria?

-Nunca nessa vida. Até pra ser puta tem que subir no salto.

-O mínimo de ética nessa vida, né?! Fala sério.

-Mas conta esse bafão aí… ela assoprou a velinha? Cantou parabéns?

Pausa pras gargalhadas sem fim. As duas já tinham perdido a sororidade e fizeram do acontecido uma comédia a la Nelson Rodrigues.

Retomemos à tragédia.

-Então, papo vai papo vem. Churrasco vai, coração vem. Linguiça vai, cerveja, vem. A louca resolveu ir pra roda de samba e mostrar seus dotes. Na boa, ela tava querendo era fazer ciúmes pro descarado.

-E aí baixou a rainha de bateria?

-Oxi.

-Por que eu não fui convidada pra essa festa, meu Deus?!

-Entre um dó maior e um ré menor, menina, eu sei que veio a outra –  ou seria a primeira? – e deu foi um belo puxão de cabelo. A cabeça da mulher entortou tanto que ela deve ter ficado foi é tonta.

-Engraçado que nessa hora o canalha pica a mula, né?

-Pois não é que não foi assim?

-Ué? Esse aí saiu a quem?

-Ele foi lá defender a manteúda.

-Tô mudando meus conceitos. Canalha de respeito esse.

-Ele não ia querer dar quizumba.

-Quer é manter as duas no cabresto.

-Na lábia….

-E na cama, menina, na cama…

-Defendeu a amante e ganhou o respeito de todos os amigos. Ninguém tinha conseguido um feito desse antes.

-E a outra, pediu a separação?

-Implorou era pra ele voltar.

-Ulalá! É sério isso?

-Ama-se muito.

-Ou não se ama é nada.

 


nunca fui canalha*
inspirado na peça ‘Nunca Fui Canalha’, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim em monólogo encenado por Tatá Lopes, com texto da atriz e da jornalista Martha Mendonça  e direção de Victor Garcia Peralta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também: