Crônicas da caixola

Cantando coisas de amor

24 de julho de 2017

Parei e vi a vida passar. Como quem não quer nada. E daquelas que ouvem tudo.

Como que vai ser quando ela voltar da Alemanha? Será que volta? E ela esquecer o pandeiro que carrega à tira colo nos últimos carnavais? Eu só via  a banda passar.

Ele cantava coisas de amor. Mas muito, tanto que ela enjoou. A passada por Londres tempos antes foram fundamentais. Fez poesia em cada pint que bebia. Dobrava o pedido a cada olhar que dava. Difícil acompanhar a comanda. E ele ouriçado com cada capítulo de Tieta.

As Diretas chegaram por aqui. Nem viu o tempo passar naquele quarto escuro. Foram meses sem jornal nem notícias relevantes. Tinha vez que só se escutava o miado do gado e a goteira da chuva lá fora. Confundira os tempos.

Trocara o dia pela noite. Não sabia mais a quantas andava Brasília, quanto mais a política do Brexit.

Rainha Elizabeth benzia o quarto neto e comemorava o réveillon na Rússia. Um incêndio assolou Portugal e fez a Espanha ceder bombeiros, médicos, carpinteiros, taxistas, todas as mãos de obra que viam pela frente. A Itália entrou em guerra com a Grécia e foi a Escócia que apartou a briga.

American way of life ditava moda, todo mundo fumava Hollywood e ouvia Michel Teló. Ronaldo Fenômeno terminava mais um casamento. Silvio Santos morreu. E Sonia Abraão disse que ele era mimado e filhinho de papai. As CPIs deram lugar às extradições do país. A rua da Bolsa de Valores depois das seis da tarde dava lugar ao samba.

Feminismo era palavra obrigatória. No São João do Recife passou-se a ouvir sertanejo. Só o sertão que não virou mar. Novidade era beijo na boca com mão pra trás. Era também as mensagens de texto com linguagem não verbal e livros de capa dura, daqueles que duram para sempre.

O absinto com gosto de laranja foi lançado. Mas os jovens de 30 anos não bebiam. A partir das dez da noite fazia um silêncio de deixar qualquer partideiro maluco. E às sete da manha tinha obra no condomínio. O Rio Maracanã transbordava a cada chuva. E o povo falava mais de amor.

Volta, Poeta Gentileza! Mostra quem somos nós e revitaliza essa Praça Mauá. As Olimpíadas estão chegando na cidade.

Vou lançar um Best-seller. Só falta escrever. Vamos começar agora então. Vou chamar aquele amigo que sempre tem boas ideias. Cadê o telefone dele? Vou tentar um fax. É mais garantido. Depois ligo pra ver se chegou direitinho, tudo legível.

A vida com música é melhor. Eu falei pra ela. Nietzsche também já tinha falado. Mas fui eu quem deu o livro pra ela. Tem tom, tem acorde, tem sentido. Ela se repete, mas é sempre diferente.

Tem tempo e contratempo. Só minha vida que não tem compasso. Tem espaço.

Levantei e tomei um banho. Hoje é dia dela chegar. Tá cedo. Vou deitar mais um pouco. Alemanha é terra de Hitler. Tem aquele muro lá cheio de lembrança e cheio de arte também. O poder da ressignificação.

Me buscam na internet. Não sei quem, mas pouco importa. Procuram meus rastros, mas estudo acordes. Desafio em cada nota. Qualquer nota bossa nova.

Oi.

Quanto tempo.

Você voltou.

E quer música clássica.

Acabou o carnaval.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também: